domingo, 26 de agosto de 2012

Crónicas da vida e morte do João Moleiro - Epílogo


XIV - Epílogo


(Assim se escreveram as crónicas do moleiro e família)

Esta lutadora morreu aos 68 anos, depois de anos de adversidades mas também muitas alegrias, sem nunca ter desistido da vida … 

Foi sempre acariciada pelas memórias de um homem que a ajudou a viver em vida ainda que não estando presente, ladeada pelo amor dos seus filhos que muito a respeitaram.

Assim findaram o João moleiro e a sua mulher a Maria moleira, que nos olham agora de um qualquer recanto dos céus, onde as estrelas se confundem com a negridão do interminável universo, que se esconde nos seus mistérios!.

Sempre que as estrelas brilham mais intensamente e os pássaros me rodeiam quando busco as suas memórias sinto-me imbuído da presença de meus pais. 

Sim sou eu o narrador desta história, o quinto filho dos moleiros, pessoas de quem muito me orgulho, fruto do amor de dois seres que me marcaram a vida, me vincaram a personalidade e me passaram a sua maior riqueza; os seus valores …

Obrigado aos dois por terem sido quem foram, na certeza que um dia vos encontrarei …


João Gomes Salvador – 26/08/2012

Crónicas da vida e morte do João Moleiro - Uma nova vida


XIII - Uma nova Vida


Corria o mês de Janeiro de 1973, quando a moleira descobriu que estava grávida, cujo fruto foi gerado no seu último acto de amor com o seu homem que partiu. Ficou consternada, pois a vida era já tão dura e vinha mais uma boca para alimentar. Ainda pensou em abortar mas decidiu que onde se criam quatro criam-se cinco. Fruto da sua decisão nasceu no verão de 1973 o filho mais novo.
Os anos correram lentos, numa vida cheia de trabalho. Os filhos mais velhos emigraram ficando apenas os mais novos.
Ajudada pelos irmãos emigrados na França e no Brasil e pelo seu trabalho diário, continuou a sustentar a sua prol, agarrando-se às memórias que lhe alimentavam a alma onde buscava forças para continuar.
Tinha momentos em que pensava em baixar os braços e desistir, mas tinha que pensar nos filhos. Entre o moinho que cedo cedeu aos avanços da tecnologia, e a agricultura lá foi a moleira criando os filhos.

Crónicas da vida e morte do João Moleiro - Última morada


XII – Última morada



O enterro do moleiro foi triste, chorando os filhos e a mulher copiosamente, com uma intensidade de cortar o coração. As pessoas apiedaram-se, comentando em surdina a má sorte que tiveram.
O Tó estava muito constrangido, recordando-se da conversa que horas antes tivera com o moleiro – apesar de saber que a vida era apenas uma curta passagem para a morte (Do pó nasceu para o pó voltarás).
- Viste Zé, parece que ele já sabia que ia morrer.
- Triste sina amigo Tó. A morte expia-nos a cada esquina.
- Dizem que morreu de ataque cardíaco.
- Não sei, a verdade é que se foi para sempre um homem de bem.
- Aproxima-se agora uma luta muito grande para a mulher. Com quatro filhos nos braços, não lhe vai ser fácil!
- Pois era esse o maior fantasma que atormentava o moleiro …
A urna era de pinho, repousando ali o corpo sem vida, desprovido do espírito e da alma de tão nobre senhor. A sua face irradiava serenidade, ainda que fosse apenas aparência. A mulher olhou-o pela última vez procurando no seu rosto e nas sua memórias forças para uma batalha que se aproximava … a luta pela sua sobrevivência e dos seus filhos!
E assim seguiu o cortejo fúnebre do moleiro, em direcção ao cemitério da aldeia, após a missa. Havia-se extinguido a vida, cuja alma foi entregue às mãos de deus, como o são todas as almas desde os tempos da criação e da existência da humanidade.

Crónicas da vida e morte do João Moleiro - Sono eterno


XI – Sono eterno


E lá foi o moleiro deitar-se, sentindo-se indescritivelmente só, adormecendo pacificamente, para nunca mais acordar.
O seu último sonho e o bailar dos seus pensamentos, foi com os filhos e com a mulher. Viu algo de estranho a pairar na sua mente, um quinto filho que não tinha mas que lhe surgia teimosamente no sonho.
Era uma criança parecida consigo fisicamente, o qual o chamava repetidamente de pai. Viu-a sorrir-lhe passando-lhe sentimentos e laços de amor, sossegando-o na sua morte que se aproximava.
Agradeceu a Deus poder conhecer ainda que em sonho o seu filho ainda por nascer e os anos que lhe havia dado de vida.
Aceitou o seu inevitável destino, vislumbrando finalmente uma luz que se aproximou lentamente, tragando-lhe a alma, apagando-o para a eternidade – a vida do moleiro havia-se assim extinguido serenamente.
Atravessou o rio da vida que o transportou para o além …

Crónicas da vida e morte do João moleiro - Último encontro


X – Último encontro com a família


Perto da meia-noite, o moleiro chegou a casa com o filho mais velho. Tinha as mãos frias, pelo que se aproximou da lareira onde se aqueceu. A mulher entregou-lhe um púcaro com café quente para o aquecer, o que ele recusou dizendo que estava bem. A mulher guardou o café na cafeteira, ao mesmo tempo que o olhava de soslaio achando-o pálido e abatido. Continuou com as suas tarefas domésticas pois era preciso tratar da casa já que os dias começavam de madrugada e terminavam apenas ao cair do dia. O trabalho nos campos e no moinho deixava-lhe pouco tempo para as lides da casa, onde era ajudada pela filha mais velha.
O João moleiro estava agachado na lareira, cabisbaixo, agarrado com as duas mãos à cabeça, sem saber explicar o que o incomodava. Uma tristeza visceral apoderara-se dele … a vida extinguia-se-lhe e o sangue enregelava-se.
- Não sei o que tenho mulher, sinto uns tremedouros.
- Deve ser gripe não é melhor tomares um café quente?
- Não insistas, não quero.
- Tu é que sabes.
- Vou-me deitar. Ainda ficas?
- Sim vou acabar de arrumar as coisas que amanhã temos que sair cedo.

Crónicas da vida e morte do João moleiro - O Clube


IX – O clube


Após terem jantado em família, lá segui para o clube onde esteve a ver as notícias na RTP, meditando sempre no seu próprio silêncio.
O filho mais velho entretinha-se juntamente com outros a jogar o pião ou a jogar ao rapa, ora ganhando, ora perdendo.
O moleiro conversava com o Tó sobre a matança do porco que se aproximava. Mas o moleiro tinha um semblante carregado e triste, o que preocupou o Tó.
- O que tens ó moleiro?
- Nada amigo, apenas me sinto triste e preocupado.
- Mas estás doente?
- Não, mas sinto alguma coisa que me preocupa, nem te sei explicar. Temo pelo futuro dos meus filhos.
- A vida vai assim tão mal – perguntou o Tó.
- Vai-se vivendo, mas o moinho já não me dá grande sustento.
- Pois imagino, o cereal agora começa a ser levado para as moagens industriais. Mas ainda tens bastantes fregueses.
- Sim é verdade – disse o moleiro. Mas começam a diminuir o que me preocupa. Até já diminuiu a maquia do alqueire de 1,5 quilogramas para um quilograma.
- Tem calma amigo moleiro. Tens ainda os terrenos para te socorrer.
- Sim é o que me vai valendo! Só espero que a saúde nunca me falte.
- Não há-se faltar és um homem cheio de saúde.
- Entrego a vida nas mãos de Deus. Mas não sei … sinto alguma coisa que me pesa na alma. Bem vou para casa ter com a mulher.
- Vai com Deus amigo moleiro. Até amanhã!
- Até amanhã – disse o moleiro como que prevendo o desfecho daquela noite.

Crónicas da vida e morte do João Moleiro - Consoada


VIII - Consoada

Era noite de consoada, encontrando-se a família reunida para a ceia. A filha mais velha havia ido buscar à fonte, um cântaro de água cristalina, para utilizar nas lavagens de louça e para beberem. A mesa era composta de algumas rabanadas e a ceia era um prato de batatas com grelos e um bocado de carne de porco, bem regada por azeite.
A ceia passou-se em amena conversa, falando-se sobre as lidas da vida diária e das suas dificuldades.
- Sabes mulher, este surgimento de moagens está a tirar-nos fregueses.
- Ultimamente temos perdido alguns – dizia a mulher ao mesmo tempo que levava o púcaro à boca para beber um trago de água.
- Cada vez me preocupo mais com o futuro. O moinho já não dá o lucro que dava antigamente. O que vai valendo é os terrenos, onde tiramos alguma coisa para comer e os animais. Temos as hortas de onde tiramos as cebolas; couves; feijão; cenouras e outros produtos; as oliveiras; a vinha morangueira e os animais. Havemos de viver com o que temos …
- Tens razão – dizia a mulher
- Por falar nisso para a semana vou matar o porco. Está bem cevado e vai dar muita carne; bons presuntos e fumeiro. Este ano a porca pariu vários leitões e podemos sempre vender alguns e guardar um ou dois para cevar para o próximo ano.
- Olha no ano passado ainda se meteu muita carne na salgadeira. Fiz bastantes alheiras como viste. Os filhos gostam imenso da carne do porco.
- Tenho que falar com dois ou três amigos da aldeia para me ajudar a matar o porco.
- Fala com o Tó; com o Albino e com o teu irmão.
- Vou falar vou, pois está a chegar o tempo da matança!
- Até o Ti Aires te ajuda se for preciso.
- Sim mas quatro são suficientes – disse a tom de remate o moleiro, encerrando o diálogo. Bem, vou até ao clube passar um bocado de tempo.
- Anda comigo filho.
- Já vou pai – disse o filho mais velho. 

Crónicas da vida e morte do João moleiro - Sentimentos


VII – Sentimentos


Não conseguia evitar um sentimento de tristeza que lhe rasgava a mente, apesar de estranhamente se sentir em paz consigo mesmo. 
Teria chegado mesmo a sua hora? Era apenas um simples ser humano, como muitos outros sem poder para dominar a vida ou a morte. 
Que poderia fazer senão resignar-se aos desígnios do Deus a quem rezava?
Mergulhado nesses pensamentos, seguiram os dois para casa, nunca desconfiando que fruto da sua última noite de amor, surgiria a fecundação inesperada de um novo filho, cuja existência se saberia meses depois.

Crónicas da vida e morte do João Moleiro - Ato de amor


VI – O último ato de amor



Fruto de mais um dia de labuta, os corpos cansados dos moleiros, estenderam-se para descansar no palheiro, onde haviam terminado de alimentar o burro e os animais domésticos (galinhas; patos e o porco).
Foi sem o saberem, o momento e o local onde se amaram pela última vez. Vigiados apenas pelo silêncio da noite, interrompidos pelo esvoaçar dos morcegos; pelo cacarejar das galinhas ou pelo zurrar do burro.
As estrelas brilhavam radiosas, do alto dos seus púlpitos com maior intensidade, aguardando o último suspiro do moleiro, guardando-lhe um berço naquela morada, dando-lhe oportunidade para um último suspiro de vida …
Ditaram palavras de amor eterno, sussurradas ao sabor da paixão que nutriam um pelo outro, na vida que partilharam até ali e nos frutos que desse amor desabrochou!
Como que o adivinhando, o moleiro sentiu um vazio gritando-lhe na alma, toldando-lhe os sentidos. Apesar de tudo sentiu uma paz que lhe anestesiava o espírito abraçado por um confortável sentimento de que havia cumprido o seu destino, nos anos que lhe pesavam agora nas pernas. Melancolicamente, mas com um sorriso que desenhou nos lábios o moleiro dirigiu-se à mulher:
- Olha mulher a vida não tem sido fácil. Temos trabalhado muito e tem-nos sido madrasta. A minha mãe não abdica dos cinco litros de azeite por ano, que tanta falta nos faz. Temo que se Deus me levar tenhas dificuldades em alimentar os nossos filhos.
- Olha homem não tenhas esse pensamento. Porque razão Deus haveria de te levar? És saudável e um homem de bem – Tentava acalmar-se assim a moleira, mas pressentia algo que lhe apertava o peito. Temia perder o seu homem e consequentemente temia pelo futuro e pelos filhos.
- Não sei que te diga. Pressinto o vazio, alguma coisa me mexe na alma!
- Não penses nisso.
- Mas promete-me que se um dia morrer primeiro que tu, vais lutar para conseguires criar os nossos filhos, nunca desistas! Estarei do outro lado a olhar por vós.
- Não sou mulher de desistir.
- Eu sei disso mulher!
- O que de melhor me deste nesta vida foi os nossos filhos, através de um amor puro e verdadeiro. Nunca pedi luxos, apenas ter uma côdea de pão para alimentar os filhos. Isso me basta homem de Deus!
- Sim … tens razão!

Crónicas da Vida e morte do João Moleiro - Quem era?


V – Quem era o moleiro?


O moleiro era um homem crente e apegado à religião. Um homem de bem, educado apesar da falta de instrução primária. Respeitava o próximo e a família, dizia-se (após a sua morte) que havia sido um homem com um coração enorme, que muitos aproveitavam para enganar e que não tinha grande rasgo para o negócio. A mulher, mais perspicaz para a conversação, dotada de um natural jeito negocial, punha um pouco de acalmia em tão bom coração. Sim, que para o negócio nada como a Maria moleira, que era perspicaz nas pesagens e no trato com a freguesia.
O João Moleiro era um homem da aldeia, ali nascido e criado no seio de uma grande família. Todos eles lavradores ou moleiros, alguns acabaram por procurar melhores vidas em outros países da Europa, onde estiveram por breves períodos. 
A mãe do João moleiro, era natural de uma terra próxima também ela proveniente de famílias pobres e carenciadas, como o eram grande parte das gentes do interior, naqueles anos de fome, em que reinava a ditadura. 

Crónica da vida e morte do João Moleiro - Associação


IV – As idas à Associação

(Foto da Associação - Posterior à morte do João moleiro)

As tarefas repetiam-se com a ajuda da mulher e dos filhos, sem descanso nem tempo para mais nada que não o trabalho.
Apenas no Sábado à noite o moleiro, sozinho ou acompanhado pelo filho mais velho ia até à Associação Cultural da aldeia onde se inteirava dos assuntos da terra e passava algum tempo a ver televisão, pois era o único sítio onde poderia ver imagens a sair de uma caixa mágica. 
Não compreendia como era possível ver as pessoas a mexerem-se no interior daquele minúsculo quadrado. Explicavam-lhe que era a tecnologia a evoluir!
De facto numa comunidade rural e interior, onde os avanços da modernidade iam chegando a passo de caracol, a informação era absorvida mais vagarosamente. 
Mas também ali foi chegando a modernidade. O alcatrão invadiu a aldeia nos anos 50, foi uma festa e uma grande ajuda na modernização da aldeia. Também a luz elétrica, haveria de ir chegando às casas ainda que mais tarde. 

Crónica da vida e morte do João Moleiro - A cadela laica


III – A cadela laica


Lá seguia o moleiro, sempre acompanhado pela sua fiel cadela a laica. Era tão senhoril e bela a cadela. Tinha pelo liso, abundante, cor de mel com farpas brancas. Muito meiga e companheira da família, acompanhando as lides, brincando amigavelmente com os filhos do moleiro.
A cadela fora-lhe dada pelo Zé, reputado labrador da freguesia. Era fruto de uma ninhada bastante numerosa. 
A cadela, teve um destino bem mais agradável que os irmãos, que infelizmente, porque ninguém os quis foram afogados no rio – um fim triste para tão belos animais, mas era frequente isto acontecer com as ninhadas. 
Felizmente que a Laica teve sorte em ser escolhida pelo moleiro. Tinha uma vida pacata, comendo os restos que lhe eram dados ou caçando coelhos pelos matos e pinhais que por ali proliferavam, trazendo ocasionalmente peças de caça para casa que partilhava com os donos.
A cara se satisfação na casa, os sorrisos rasgados, bem não era todos os dias que comiam coelho do monte. Era diferente dos coelhos que tinham na coelheira, bem mais saboroso! 

Crónicas da vida do João Moleiro - O dia seguinte


II – O dia seguinte


Na manhã seguinte o João Moleiro, conseguiu reparar o telhado de modo a proteger os animais domésticos, bem como a palha e o feno que servia de alimento ao animal.
O filho mais velho ficou encarregue de nesse dia alimentar as galinhas e tratar de abrir uns regos para escoar as águas dos socalcos. Quanto aos restantes iam ajudando a mãe nas tarefas do moinho.
O pai mal o tempo abriu, saiu de matina, rumando com o burro, carregado com três sacas de farinha, pelo caminho ingreme ladeado por pedras que em nada lhes facilitavam a vida.


Seguia assim pelos trilhos em direção a uma das aldeias vizinhas para entregar o cereal moído ao freguês.
Algumas horas depois o Moleiro chegou à aldeia de Argeriz, onde entregou o cereal moído. Logo foi recebido amavelmente pelas gentes daquela terra.
- Bom dia amigo moleiro.
- Bom dia Cerdeira como vais?
- Tudo bem. O tempo é que não ajudou. Tive muito prejuízo no Olival. Estas saraivadas de granizo dos últimos dias e os ventos diabólicos foram fortes como o “catano”.
- Eu que o diga amigo. Estes dias o temporal não ajudou nada. Fiquei sem cereal para moer e nada pude fazer nos meus terrenos. As minhas oliveiras ficaram também elas quase despidas.
- Pois … este ano meu amigo vai ser ano de pouca azeitona. Tanta labuta nesta vida e olha! Raios partam o temporal! Espero que fique por aqui.
- A ver vamos – dito isto o Moleiro despediu-se, deslocando-se em direcção ao Cancelo.

Ali chegado encontrou-se com o Manel. Após breve conversa, entregou-lhe três sacos de milho para moer, seguindo novamente em direcção à aldeia, rumando ao moinho, pois tempo era dinheiro.

Crónica da vida e morte do João Moleiro - Memórias


I – Memórias

O dia amanheceu tempestuoso, soprando o vento com uma intensidade descomunal, rasgando o vale da aldeia, fustigando as vinhas e as oliveiras sem contemplação. Os relâmpagos iluminavam os céus, gritando aos homens, obrigando-os a espiar os seus pecados. As crianças assustadas escondiam-se debaixo das saias das mães, temendo o castigo da mão de Deus.

Surgia assim aquele dia triste de finais de Novembro de 1972, em que as condições meteorológicas, impediam as labutas das gentes da aldeia de Sanfins.
Manteve-se assim durante grande parte do dia, caindo uma chuva bastante intensa.
Apesar da intempérie a vida não podia parar. O João Moleiro, saiu do moinho e deslocou-se ao açude para aliviar a fúria das águas, que ameaçavam transbordar. Seguiu pelo carreiro e fechou a cancela da levada que transporta a água para o moinho, para evitar a catástrofe.



Caminhava curvado perante a fúria dos ventos e das chuvas, mas não se vergava perante o tempo que o chicoteava, apenas o fazia perante Deus, quer na missa de Domingo quer aquando das preces que fazia com a família antes das refeições.
Após ter conseguido os seus intentos, verificando o açude; as levadas e libertado o curso da água de alguns detritos regressou ao moinho, onde o aguardava a mulher e os filhos, expectantes e preocupados.
Nesse dia tinha pouco cereal para moer, pois os fregueses perante o temporal que já fustigava as terras do Norte à alguns dias, não havia dado descanso a ninguém. Impedia assim o transporte do cereal para o moinho e a sua entrega após ser moído.
Era dinheiro que se não fazia com a maquia que retirava do alqueire, mas obedecia aos caprichos da natureza, que obrigava os estômagos a uma mais magra refeição, composta de uma malga de caldo com um cibo (bocado) de pão, ou por papas de milhos, apreciadas pelos filhos que as devoravam com prazer.
A rotina não parava, moía-se o resto do cereal que havia para esse dia, numa das duas mós do moinho, construído pelas mãos calejadas de seus pais. Entretanto a mulher, começava a picar as pedras juntamente com os dois filhos mais velhos, enquanto os mais pequenos dormitavam na cama improvisada no moinho, cobertos por uma partícula de farinha, alheios à intempérie e à vida dura que os esperava.  
Manteve-se assim o dia até ao escurecer, melhorando apenas durante a madrugada. Foram dias complicados, em que a tempestade teimava em não abrandar. Até os animais domésticos sofreram com a intempérie visto que o galinheiro e os currais ficaram alagados. O pobre do burro ficou todo molhado, pois partiram algumas das telhas de barro, fruto da queda de alguns ramos de pinheiro. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A vinha e as vindimas


(Vindima em Sanfins - Valpaços)

A vitivinicultura é em si uma das culturas mais trabalhosas para o lavrador que durante todo o ano tem que se dedicar à vinha, esperando também que a natureza ajude a produzir-se um vinho de melhor qualidade. Desde a enxertia; à poda; à lavoura; aos tratamentos, existe todo um processo que é necessário para garantir a saúde da videira assegurando que a mesma seja produtiva.
Mostram-se já maduros em Agosto alguns bagos de uva que sensivelmente dentro de um mês e meio serão alvo de colheita (Setembro/inícios de Outubro, dependendo muito da exposição solar que incide nas vinhas e das restantes condições climatéricas).
Quando olho as uvas suculentas, vestidas pelas folhas das videiras, apelando a serem degustadas, reconheço que me apetece provar tão doce néctar, o que faço prazeirosamente. Principalmente as denominadas uvas-de-mesa, que usualmente comia (e como sempre que tenho oportunidade), quer retiradas da videira, enquanto me dedico à labuta, quer acompanhadas com uma côdea de pão que trazia no farnel ou depois em casa, consumindo-as mais vagarosamente. 
Logo me aflora na memória os tempos mais recuados, em que com frequência passava dias a vindimar, quer nas minhas propriedades quer para outros familiares; amigos ou outros residentes da freguesia.
Actualmente ainda me delicio nas vindimas em terras transmontanas, onde os meus familiares possuem duas vinhas com castas variadas, quer de uva tinta quer de uva branca.
É uma das tarefas agrícolas que faço com prazer e que me liberta do stress diário, acalmando-me - acaba por ser uma boa terapia que recomendo vivamente. 
Corto a uva da videira com a tesoura ou com a navalha, aproveitando de quando em vez para “penicar” as uvas; colocando-as depois nos baldes. Tarefa que se repete ritmicamente, até o mesmo estar cheio e ser despejado para sacos próprios ou para outros recipientes habitualmente utilizados nas vindimas, que são depois colocados nos tratores, continuando-se assim sucessivamente, até a vinha estar completamente despida do seu bem mais precioso, as uvas. 
No entanto sempre ficam alguns bagos quer nas videiras, quer no solo, que são depois consumidos pelas aves, que por ali deambulam - nada se perdendo na natureza.


(Uvas a serem carregadas no tractor) 

Concluída a vindima as uvas são levadas para o lagar, onde são “mastragadas” (desfeitas) com auxílio a uma máquina que apelidam de mastragador, e que tem por função esmagar as uvas. 
(Máquina usada para esmagar as uvas)

Na verdade não gosto nada desse método, pois o contacto da uva com o metal tira-lhe a mística ancestral e segundo dizem, o verdadeiro sabor.
Antigamente e mesmo agora, muitos vitivinicultores, após a colocação da uva no lagar, a uva é desfeita através do pisar dos homens que alegremente, numa amena cavaqueira cantam ou contam histórias para ir passando o tempo ao mesmo tempo que de uma maneira coordenada castigavam as uvas, esmagando-as, extraindo-lhes o suco avermelhado, separando-as numa primeira fase do bagaço.

(Pisar das uvas num lagar familiar)

É uma tarefa também ela agradável. Dizem até que o vinho faz bem à pele – quem sabe pode até ser verdade. Nessa tarefa de pisar o vinho na forma tradicional, aproveitava-se e ainda agora de faz, para se beber o vinho doce, directamente do lagar ou com recurso a um “quador” para filtrar as impurezas. 
Mas cuidado para os mais sensíveis pois apesar de doce o teor alcoólico está lá e além disso pode causar-lhes reações adversas, quando bebido mais que a conta, claro está!
Depois de várias horas a pisar-se o vinho, este fica a repousar, de maneira a que possa fermentar, para no dia seguinte se baixar a crosta que emerge mercê desse processo de fermentação (como o bagaço e o restos dos bagos são mais leves sobem à superfície). Assim, no dia seguinte, repete-se o processo, pisando-se novamente. 
O trabalho esse, não acaba ali. Após o vinho sair do lagar é necessário prensar o bagaço para retirar o vinho que ainda esteja teimosamente “agarrado” aos restos das uvas.
Dias depois o vinho é retirado e colocado nas pipas de madeira, ou nas cubas em inox, as quais são previamente limpas e tratadas para receber tão precioso néctar fruto do trabalho do lavrador e das benesses da natureza, que nem sempre apura o vinho ao gosto de quem com ele se deleita.


(Vinho acondicionado na pipa de madeira)

Também o bagaço tem destino, rumando ao alambique, onde após um processo de destilação dá lugar à aguardente ou bagaço como também lhe chamam. 
Trata-se de uma bebida muito forte, que endurece a alma do homem por mais fria ou gélida que seja.


(Alambique - colocação do bagaço)

Falei-vos anteriormente de memórias e tempos mais recentes. 
Recuando alguns anos, uma das vinhas que tive e que actualmente está abandonada (de poulo), situada no moinho, junto ao rio Torto em Sanfins, estava convenientemente colocada em calços. 
Ali os meus antepassados (meus pais e avós), haviam plantado videiras em filas ou em latadas, mas apenas uvas morangueiras.
Para quem não sabe o morangueiro é a designação que no Norte e noutras zonas do país se dá ao vinho produzido a partir de castas de uva americana.
Estas uvas são muito doces, em geral com cor violácea e rosada, com um intenso sabor frutado, lembrando o cheiro a morango. Ao contrário doutras castas o vinho que produzia no moinho era apenas morangueiro (ou americano), com um teor alcoólico mais baixo, dificultando sua conservação, pois quando exposto ao ar facilmente se estraga tornando-se em vinagre. 
A vindima era feita pela família, de uma forma mais cuidadosa, mercê das características do terreno. 



As uvas eram também elas, acondicionadas nos sacos e depois carregadas num animal de carga (mula; macho; burro ou cavalo).
Os caminhos para o terreno (denominado de moinho) é sinuoso e os pobres animais tinham que fazer várias viagens para a aldeia, até ao lagar do Sr. Aires e da Sr.ª Isolina, onde eram depois depositadas.
Ali eu e meus irmãos, por vezes com ajuda de outras pessoas ficávamos encarregues de pisar o vinho morangueiro, nos mesmos moldes que anteriormente expliquei.
Em relação a este tipo de vinho, era consumido na generalidade dos casos no mesmo ano da produção, visto que era de mais difícil conservação. 
Também era algum dele (quando em excesso para o consumo próprio), aproveitado para fazer aguardente nos alambiques.
Pode até ser um vinho considerado de baixa qualidade, mas a verdade é que é considerado por quem o consome, refrescante e por ser intensamente aromático é por vezes utilizado em refrescos (com uma bebida gasosa) e até na culinária, continuando a ter grande número de apreciadores pelo Nordeste Transmontano e por outras regiões do país e do mundo.
O vinho é uma das principais culturas das aldeias da terra quente (paralelamente com o azeite) sendo cultivado para consumo do agricultor, mas grande parte é vendido na Adega Cooperativa de Valpaços, que depois produz vinhos de excelente qualidade, cujos vinhos são reconhecidos pelos enólogos e pelos especialistas mais conceituados da nossa praça - pode consultar os vinhos produzidos em Valpaços em: (http://www.acv.pt/?pID=20&mSelId=10). 
Infelizmente muitas vezes o valor que é pago ao agricultor, pelo quilo da uva é inferior ao custo da produção. 
Tivesse o lavrador que pagar todas as jeiras e seguramente que não valeria o esforço cultivarem-se as vinhas. Muitos fazem-no por carolice; por necessidade; ou atrevo-me a dizer, até por respeito aos seus antepassados, preservando a identidade agrícola da freguesia. Sim porque infelizmente a vida do agricultor, não cativa novas gerações para continuar o seu legado em tais lides diárias.
As novas gerações partem compreensivelmente em busca de novas oportunidades quer pelo país quer pelo mundo, visto que a nação não lhes reserva melhores destinos, mercê do abandono a que o interior está votado pelas elites enraizadas no país. 
Quem sabe com o acentuar da crise não fará com que muitos terrenos que estão hoje abandonados possam voltar a ter o fulgor e a vida de outros tempos? 
Não direi que os jovens possam viver apenas disso mas talvez como um complemento?
Seja como for aguardo ansiosamente pela próxima vindima …

João Salvador – 15/08/2012

Para onde caminhas Portugal?




A luta hoje não é contra os espanhóis da época da restauração (esses pelos menos lutavam com honra e dignidade pelo que achavam certo). 

Naquela altura fomos heróis e reerguemos o orgulho da nossa nação, pois valores mais altos se levantaram - o orgulho de ser português. 

Hoje lutamos (diga-se com as armas enferrujadas - já que a justiça está prisioneira no cárcere de uma mar de leis que não servem o interesse de todos de igual modo) contra um poder obscuro, enraizado no nosso país (extensível a várias classes). 

A corrupção; o compaderio; a cultura do chico-espertismo; o clientelismo ; as elites chuleiras (desculpem usar este neologismo); os parasitas, todos eles vivem agarrados a um hospedeiro que está prestes a desabar, apresentando-se moribundo. 

Temos sem dúvida pela frente uma batalha bem mais difícil, que se pensava ter acabado com o 25 de Abril. 

Mas será que a revolução serviu os interesses da nação e do seu povo ou apenas de alguns que se nutrem avidamente do esforço do resto do povo? 

Onde estão os valores patrióticos de certos senhores, que apenas alimentam os seus vícios, desprezando os sacrifícios dos nossos antepassados e de tantos que pela pátria lusa lutaram. 

Tenho em mim sentimentos de amor pela pátria, a qual fui ensinado a amar. Quantos o têm? Duvido que as elites se sacrifiquem. Preferem utilizar os cordeiros para o sacrifício, não abdicando das mordomias que conseguem amealhar, criando subterfúgios que as garantem.
Para onde caminhas Portugal?"


Como diria Guerra Junqueiro:



UM POVO IMBECILIZADO E RESIGNADO...

"Um povo imbecilizado e resignado,
humilde e macambúzio,
fatalista e sonâmbulo,
burro de carga,
besta de nora,
aguentando pauladas,
sacos de vergonhas,
feixes de misérias,
sem uma rebelião,
um mostrar de dentes,
a energia dum coice,
pois que nem já com as orelhas
é capaz de sacudir as moscas;
um povo em catalepsia ambulante,
não se lembrando nem donde vem,
nem onde está,
nem para onde vai;
um povo, enfim,
que eu adoro,
porque sofre e é bom,
e guarda ainda na noite da sua inconsciência como que um lampejo misterioso
da alma nacional,
reflexo de astro em silêncio escuro
de lagoa morta (...) Uma burguesia,
cívica e politicamente corrupta ate à medula, não descriminando já o bem do mal,
sem palavras,
sem vergonha,
sem carácter,
havendo homens
que, honrados (?) na vida íntima,
descambam na vida pública
em pantomineiros e sevandijas,
capazes de toda a veniaga e toda a infâmia,
da mentira à falsificação,
da violência ao roubo,
donde provém que na política portuguesa sucedam, entre a indiferença geral,
escândalos monstruosos,
absolutamente inverosímeis no Limoeiro (...) Um poder legislativo,
esfregão de cozinha do executivo;
este criado de quarto do moderador;
e este, finalmente, tornado absoluto
pela abdicação unânime do país,
e exercido ao acaso da herança,
pelo primeiro que sai dum ventre
- como da roda duma lotaria.
A justiça ao arbítrio da Política,
torcendo-lhe a vara
ao ponto de fazer dela saca-rolhas; Dois partidos (...),
sem ideias,
sem planos,
sem convicções,
incapazes (...)
vivendo ambos do mesmo utilitarismo
céptico e pervertido, análogos nas palavras,
idênticos nos actos,
iguais um ao outro
como duas metades do mesmo zero,
e não se amalgamando e fundindo, apesar disso, pela razão que alguém deu no parlamento,
de não caberem todos duma vez na mesma sala de jantar (...)"

Guerra Junqueiro, in "Pátria", escrito em 1896

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Adulteração do Património Cultural



O património cultural de uma nação é em si a sua própria identidade. É através dele que a nossa história é contada e relembrada. O cuidar desses tesouros é um dever de todos nós, pois o respeito pelos nossos usos e costumes ancestrais devem ser recordados e preservados com orgulho!
Quando um monumento; edifício ou bem cultural necessita de ser restaurado ou alvo de intervenção, a mesma deve ser feita por pessoas devidamente credenciadas para o efeito, pois caso contrário verificar-se-ão eventuais alterações ao património cultural na sua estética visual, que ferirá de morte a originalidade do bem que temos o dever de preservar.
Não direi que os responsáveis por tais atentados ao nosso património cultural o façam intencionalmente, com qualquer outro propósito (pois poderia ser interpretado como ofensivo), mas denota uma total falta de conhecimento nessa vertente, ou mero desleixo. Não se procuram arquitetos como o Siza Vieira, nem tão pouco sejam especialistas ou versados na matéria, mas tão só rigor prévio nas avaliações das intervenções que se querem fazer no património cultural de uma aldeia; vila ou cidade.
Situação há que são remediáveis, outras infelizmente são efetuadas com uma negligência tal que não é mais possível repor a originalidade do património.
Tenho notado nas minhas curtas viagens ao Norte de onde sou natural, que algum património tem vindo a ser alvo de intervenções, sem que os responsáveis se tenham assegurado que essas mesmas intervenções, não alterassem a originalidade e os traços arquitectónico-culturais desse património.
Desde lavadouros públicos; até chafarizes, incluindo edifícios como igrejas e capelas, tenho notado o desleixo com que as obras são feitas quer não apenas na parte estrutural mas também acrescentando pormenores arquitetónicos desadequados aos locais, o que muito me entristece.
Seria pertinente que antes de tais intervenções desadequadas feitas um pouco à moda do “fazer para mostrar obra”, fossem objecto de análise e estudo para se aferir de que maneiras podem ser efetuadas sem adulterar os seus traços. Além de que muitas vezes se tratam de intervenções profundamente desnecessárias, bastando nalguns casos uma limpeza profunda e metódica dos edifícios ou ao património cultural (dependendo do objeto alvo).
Questiono por exemplo o caso de um lavadouro público, colocado numa zona rural, constituído por pedra (penso que de granito), se será relevante a colocação de pilares que fazem lembrar um pórtico militar, sem qualquer tipo de utilidade, nem sequer para cobertura? 
Naturalmente que destrói a originalidade do lavadouro (onde gerações de mulheres rurais lavaram as roupas de seus familiares e onde as notícias da aldeia eram amplamente afloradas), desde logo porque fica desenquadrado da natureza e da estética do mesmo e em segundo lugar os pilares são feitos de betão, o que o torna um mamarracho e um convite à banalização de obra para “mostrar à vista” sem qualquer propósito e com custos para o erário público.
Pede-se aos responsáveis locais que se preocupem mais com o património cultural, pois a preservação requer bom-senso e um certo conhecimento nessa matéria.
As nossas memórias são a nossa história e a nossa história faz-se do que herdamos dos nossos antepassados, que merecem o nosso respeito, honrando o património por eles deixado, preservando-o nos seus traços originais e não adulterando-o!

João Salvador – 14/08/2012